Com um capacete improvisado marcado “PRESS/BÁO CHÍ”, duas câmeras no peito e 12 anos de idade, Lo Manh Hung — o “Jimmy” — transformou o caos de Saigon em campo de trabalho. Durante a Guerra do Vietnã (1954–1975) que opôs o Vietnã do Norte, comunista e apoiado por URSS/China— que mobilizou cerca de 690.000 soldados do Exército do Povo do Vietnã (PAVN) em 1966 e aproximadamente 200.000 guerrilheiros do Viet Cong — , ao Vietnã do Sul — apoiado pelos EUA e aliados estrangeiros, com cerca de 850.000 militares sul‑vietnamitas em 1968, num conflito que escalou com a presença militar americana — chegando a mais de 2,7 milhões de militares servindo ao longo da guerra, com um pico de 543.000 soldados americanos presentes — e atingiu um ponto de inflexão em 1968, na Ofensiva do Tet: uma série de ataques coordenados contra cidades e bases no Sul”, nesse auge da guerra, Lo Manh Hung já registrava combates de rua, tanques e evacuações, imagens que vendeu a veículos locais e internacionais, tornando-se possivelmente o mais jovem fotojornalista em um conflito ativo.

Filho do freelancer Lo Vinh, Jimmy aprendeu técnica no laboratório doméstico e engrenou cedo na rotina de pautas, revelação e entrega de fotos. A estatura miúda, obstáculo em quase tudo, virava trunfo: ele se esgueirava por escombros e atravessava cordões de imprensa até a linha de tiro. A polícia, desconfiada de um garoto na cena, às vezes o detinha; ainda assim, ele conquistou acesso raro entre militares e repórteres.

A família inteira sustentava o ofício: o pai no campo, a mãe no quarto escuro, irmãos no corre entre redações. Ferimentos o alcançaram duas vezes — primeiro, um tiro de AK-47 no braço; depois, estilhaços de artilharia que lhe afetaram a audição. Mesmo assim, voltou ao trabalho logo após cada episódio.
Entre as cenas mais lembradas está a fotografia da evacuação em An Lộc (1972): o helicóptero cercado por civis e soldados feridos tentando embarcar. A família relata que nesse contexto Jimmy estava lá, sob foguetes e artilharia enquanto aeronaves decolavam lotadas; apesar de não conseguir confirmar a autoria da foto à Jimmy, a imagem virou síntese do caos que ele perseguia e resume seu método para fotografar: chegar antes, manter a câmera erguida, sair ileso quando possível. Ja que Jimmy foi baleado por um AK-47 no braço e, anos depois, atingido por estilhaços de artilharia que afetaram a audição — e voltou ao trabalho após ambos os episódios.

Entre 1968 e 1975, Jimmy publicou uma “pilha” de imagens, recebendo cerca de US$ 10 por foto — valor que, segundo ele, sustentava a casa por um mês. Durante a queda de Saigon, perdeu negativos e ampliações ao fugir às pressas; anos depois, já imigrado, abriria uma loja de fotografia em San Francisco. Em 1998, reencontrou o lendário editor da AP Horst Faas, que o reconheceu como o garoto que fotografara a Tet.

O pós-guerra trouxe dispersão e recomeços. A família escapou por rotas distintas; os irmãos se separaram, e só voltaram a se reencontrar num campo de refugiados em Guam. Jimmy acabou indo morar nos Estados Unidos e levou uma vida discreta comparada à infância no front, casou-se com Vong Cam Thu e teve duas filhas e, trabalhando com fotografia na Califórnia, manteve a câmera por perto até o fim. De volta ao Vietnã em 2018, morreria pouco depois, vítima de insuficiência cardíaca, deixando como legado não só um acervo de imagens — em parte perdido —, mas a prova de que olhar e coragem também podem caber no corpo de um menino.
Por que a história importa
Jimmy ampliou a compreensão pública do conflito ao ocupar um espaço onde adultos hesitavam. Sua presença pequena, porém resoluta, rompeu barreiras físicas e simbólicas, mostrando a guerra a partir do nível da rua — e lembrando que, em meio a tanques e sirenes, havia famílias tentando sobreviver. O retrato que emerge dos depoimentos e dos arquivos fotográficos é o de um profissional precoce, diligente e consciente do papel econômico que exercia em casa, sem romantização do risco.

Ficha rápida
Marcas da carreira: presença na Ofensiva do Tet; ferimentos em ação; emigração para os EUA; loja própria em San Francisco; encontro com Horst Faas em 1998.
Nome: Lo Manh Hung (“Jimmy”)
Início na imprensa: 11–12 anos, em Saigon
Equipamento: câmeras Asahi Pentax; capacete com “PRESS/BÁO CHÍ”.