The Wizard of the Kremlin, nova obra de Olivier Assayas, provocou grande comoção ao estrear no Festival de Cinema de Veneza, ocorrendo entre 27 de agosto e 6 de setembro de 2025. Adaptado do best‑seller de Giuliano da Empoli — vencedor do Grand prix de l’Académie française em 2022 — o filme se apoia na figura fictícia de Vadim Baranov (Paul Dano), inspirado no controverso estrategista Vladislav Surkov, para narrar a escalada de Vladimir Putin ao poder.
Uma ascensão política recontada com sutileza e ambiguidade
Baranov, um ex-artista que se transforma em produtor de televisão e, depois, em manipulador de narrativas do Kremlin, guia a narrativa entre o final dos anos 1990 e o início dos anos 2010 — marcando desde guerras, tragédias como o naufrágio do submarino Kursk até a anexação da Crimeia — tudo entrelaçado por artifícios de propaganda e manipulação editorial.
Jude Law: mais aura do que imitação
Law assumiu o papel de Vladimir Putin com cautela: em vez de buscar uma caricatura, focou em transmitir uma energia contida e ameaçadora. “Não tenho medo de repercussões”, declarou com leveza e convicção. Inspirado, literalmente, por um “mergulho obsessivo” na persona de Putin, Law buscou capturar sua expressão lacônica e sua postura — e preferiu não alterar sua voz natural, apostando em atuação sutil e bem articulado, ao invés de uma “imitação”.
Repercussão dividida, mas presente
A recepção crítica foi polarizada; enquanto alguns críticos condenaram o filme como exagerado ou superficial, outros viram nele a realização mais ousada de Assayas até hoje — elogiando sua abordagem poética e cerebral sobre o poder. A premissa ambiciosa e a atuação de Law receberam destaque, apesar de centrar-se em Dano como o protagonista, o Mago do Kremlin (The Wizard of the Kremlin), moralmente ambíguo.
Estética, elenco e produção
Além de Law e Dano, o elenco inclui Alicia Vikander como Ksenia, figura simbólica da mudança geracional e da esperança na Rússia pós-soviética; Jeffrey Wright interpreta um escritor norte-americano preocupado com os rumos da política global. A produção, que tem 156 minutos de duração, foi rodada majoritariamente em Riga, Letônia — uma escolha estratégica dada a tensão com a Rússia e o contexto da guerra na Ucrânia.
Premiações e aplausos
No dia 31 de agosto de 2025, The Wizard of the Kremlin teve sua estreia mundial na competição oficial da 82ª Mostra de Veneza, concorrendo ao cobiçado Leão de Ouro. Após a exibição, recebeu uma calorosa ovação de quase 12 minutos na sala de projeção.
O olhar sobre The Wizard of the Kremlin revela um filme que transforma a política em espetáculo e manipulação, conduzindo o espectador pelos bastidores do Kremlin através da figura de um spin-doctor moralmente ambíguo. A interpretação de Jude Law evita a armadilha da imitação caricatural, privilegiando um clima emocional denso, sustentado por uma expressividade interna e uma presença que se impõe de maneira quase ameaçadora. Olivier Assayas, por sua vez, alterna entre a micropolítica íntima e o grande quadro histórico, refletindo sobre o papel da mídia e a fabricação daquilo que chamamos de “realidade”. A recepção, como era de se esperar em uma obra de tamanha ousadia, dividiu opiniões: houve quem a visse como uma peça inflamada e excessiva, e outros que reconheceram sua ambição e impacto emocional. Produzido entre França e Inglaterra e rodado majoritariamente na Letônia, em um contexto ainda marcado pela guerra na Ucrânia, o longa estreou em Veneza com reconhecimento imediato, consolidando-se como uma das obras mais comentadas e provocativas da mostra.