Espetáculo AZIRA’I chega a Fortaleza e celebra a força da memória, das raízes indígenas e da cultura como resistência
Nos dias 7 e 8 de novembro, o palco do Cineteatro São Luiz, em Fortaleza, será tomado por uma das vozes mais potentes da arte indígena contemporânea: Zahy Tentehar. Em “AZIRA’I – Um musical de memórias”, a atriz, cantora e escritora apresenta um espetáculo autobiográfico que ultrapassa a cena teatral para tocar no mais profundo das origens, das tradições e da relação entre mãe e filha — uma herança espiritual, cultural e afetiva que se impõe com beleza e potência.
O solo, escrito e protagonizado por Zahy, sob direção de Denise Stutz e Duda Rios, é uma obra que afirma a presença indígena como parte indissociável da identidade brasileira. Em tempos em que se discute território, pertencimento e reparação histórica, AZIRA’I emerge como um grito de memória viva. Mais do que encenar sua história pessoal, Zahy compartilha o legado de Azira’i, sua mãe — a primeira mulher pajé da reserva indígena de Cana Brava, no Maranhão. Uma mulher de saberes ancestrais, curandeira com mãos, plantas e cantos, cuja trajetória desafia o apagamento sistemático das vozes originárias.
Teatro como reexistência e herança espiritual

Azira’i não é apenas um espetáculo, é um ritual poético e político. Em cena, Zahy mistura língua portuguesa e Ze’eng eté, idioma do povo Tentehar, resgatando um idioma tradicional em vias de esquecimento. Entre cantos, projeções e depoimentos, ela nos conduz por memórias de uma infância marcada pelo afeto e pelo confronto com um mundo que constantemente tenta silenciar culturas originárias.
Criado a partir das conversas entre Zahy e o dramaturgo Duda Rios — iniciadas durante a montagem de Macunaíma, em 2019 —, o espetáculo articula diferentes narrativas: a da filha, a da mãe e a de uma narradora que costura o enredo com delicadeza. A direção sensível de Denise Stutz orienta a cena minimalista e simbólica, com poucos elementos: uma cadeira, uma cortina de corda e projeções assinadas por Batman Zavareze, cenografia de Mariana Villas-Bôas, e figurinos de Carol Lobato. A trilha sonora original, criada com Elísio Freitas (do premiado Nordeste Ficção), reforça o aspecto ritualístico do espetáculo.
Um marco na cena brasileira e internacional
Desde sua estreia, AZIRA’I vem sendo reconhecido como um dos trabalhos mais importantes do teatro recente. Em 2024, conquistou os principais prêmios brasileiros de teatro, incluindo o de melhor atriz, tornando Zahy Tentehar a primeira artista indígena a receber esse reconhecimento.
Aclamado também internacionalmente, o espetáculo passou por cidades como Chicago, Bogotá, Santiago, Córdoba e Montevidéu, e foi destaque no Festival de Avignon OFF, na França — o maior festival de teatro do mundo. Jornais como Le Monde e Le Figaro o listaram entre os melhores do evento, que contou com mais de 1.700 produções.
Essa trajetória internacional reforça o papel da arte como linguagem universal e, ao mesmo tempo, enraizada nas narrativas que formam o Brasil profundo — aquele que insiste em existir, mesmo quando tentam apagá-lo.
“Sou a filha caçula da minha mãe”
Para Zahy, o espetáculo é uma forma de manter viva a relação com a mãe — mesmo após sua partida em 2021 — e de refletir sobre o que significa ser mulher, ser filha, ser indígena num país que ainda se debate com as próprias raízes.
“Quando pensei em trazê-la ao teatro, não foi para falar apenas dos meus sentimentos. Foi para dialogarmos com nossos reflexos enquanto sujeitos coletivos. Gosto de nos ver, humanos, como espelhos, pois nossas histórias se entrelaçam e se compõem”, afirma a atriz.
SERVIÇO
Espetáculo: AZIRA’I – Um musical de memórias
Datas: 7 e 8 de novembro de 2025 (quinta e sexta)
Horário: 19h
Local: Cineteatro São Luiz – Rua Major Facundo, 500 – Centro, Fortaleza (CE)
Classificação: 12 anos
Duração: 90 minutos
Acessibilidade:
- Audiodescrição e Libras na sexta-feira (07)
- Libras no sábado (08)
Ingressos:
- R$ 100,00 (inteira)
- R$ 50,00 (meia)
- R$ 42,00 (promocional)
- R$ 40,00 (para funcionários da Petrobras, mediante crachá)
Ponto de venda:
Online em breve pelo Sympla
Bilheteria física do Cineteatro São Luiz (terça a sexta, das 9h30 às 18h | sábado, das 9h30 às 17h)